Servindo a stout perfeita com CFD

A cerveja stout é conhecida pelo seu sabor encorpado, coloração escura e espuma cremosa que conquista apreciadores no mundo todo. Essa experiência sensorial, porém, vai muito além da receita: fatores como a forma do copo, a pressão do gás e até mesmo o movimento do líquido influenciam diretamente na qualidade da bebida.

É justamente nesse ponto que a Dinâmica de Fluidos Computacional (CFD) entra em cena. Com o uso de gêmeos digitais, é possível simular com precisão o comportamento da stout desde a formação da espuma até o escoamento no copo, garantindo análises detalhadas que antes dependiam apenas da experimentação prática.

No fim das contas, até o simples ato de servir uma stout pode ser entendido e otimizado com a ajuda da engenharia e da simulação computacional. Siga a leitura e descubra como isso acontece na prática.

A dose perfeita

Servir uma stout perfeita envolve muito mais do que técnica de barista. O primeiro passo é entender o que compõe um drink ideal e a “receita da perfeição” pode ser descrita da seguinte forma:

A stout perfeita entregue por uma ferramenta CFD

Será possível reproduzir a “servida perfeita” de uma stout em uma ferramenta de simulação de CFD? Para isso, toda a física envolvida na bebida foi considerada (e a espuma, vale dizer, pode ser um grande desafio). 

Cada etapa seguida por um barman ao servir a cerveja perfeita foi recriada, assim como todos os movimentos necessários e nenhuma linha de código precisou ser escrita. 

O resultado obtido já desperta a vontade de brindar. E além de tudo isso surgem insights sobre a “mágica” que acontece em um copo de stout, revelados com o apoio da simulação CFD. Tudo isso ocorre sem qualquer intervenção manual, depois que o software recebe as instruções corretas.

Assim, foi servida a primeira stout perfeita graças a uma ferramenta de simulação de CFD. Vamos ao passo a passo. 

1. Comece com um copo limpo

Na simulação de CFD e na vida real, tudo começa com um copo limpo. No universo CAE, isso significa trabalhar com dados CAD sem falhas e, depois, garantir uma malha computacional de alta qualidade.

Com a ferramenta certa, erros nos modelos CAD podem ser facilmente identificados e corrigidos. Também é possível projetar o próprio copo dentro do software.

Uma geometria limpa é considerada pré-requisito para a geração de uma malha computacional de alta qualidade. 

Somente quando o copo está limpo e possui o formato adequado é que a formação da coroa de espuma característica da stout pode ser observada, tanto na vida real quanto em CFD. Do contrário, o resultado pode ser uma simulação desastrosa. 

Felizmente, existem ferramentas capazes de automatizar esse processo e garantir a preparação correta do modelo.

2. O ângulo de 45 graus

O movimento correto é considerado fundamental. Segundo os mestres da stout, o processo deve ser feito em duas etapas. Durante o primeiro enchimento, o copo deve ser posicionado sob a torneira em um ângulo de 45 graus e, no caso de copos de marca, a referência deve ser a harpa, mirando aproximadamente a 3/4 da altura total.

Na simulação em CFD, a geometria precisa ser transformada para que o copo seja colocado na posição e inclinação corretas. Esse ajuste é facilmente realizado por meio das operações de transformação disponíveis na ferramenta.

Com isso, o processo de enchimento é iniciado.

Modelando a stout

Na simulação CFD, a stout precisa ser descrita, no mínimo, como um fluido de dois componentes: a cerveja líquida e as pequenas bolhas de nitrogênio, responsáveis pela formação da coroa de espuma característica após a decantação. 

Para essa representação, é adotada uma abordagem multifásica Euleriana, utilizando a descrição de volume de fluido para a cerveja. Embora essa modelagem seja direta para o líquido, no caso das bolhas uma descrição contínua não é tão evidente. À primeira vista, uma abordagem Lagrangiana pareceria o ideal, no entanto, foi empregada a descrição Euleriana contínua, tratando as bolhas como gás nitrogênio com a densidade típica da espuma de cerveja.

Trata-se, claramente, de uma aproximação. Na realidade, existem milhões dessas bolhas que interagem de maneira altamente não linear, especialmente quando se agrupam e dão origem à coroa de espuma.

Diante da complexidade dessa física de transição, a escolha inicial foi simplificar o modelo, tratando as bolhas como um contínuo. A terceira fase considerada na abordagem multifásica é o ar circundante.

Para descrever a superfície livre da cerveja em relação ao ar ao redor com precisão e baixo custo computacional, é aplicado o refinamento de malha adaptativo orientado por modelo. Esse recurso refina automaticamente a malha na interface entre o ar e o líquido conforme o enchimento avança.

3. O enchimento até 3/4 do copo

Na prática, quando a válvula é aberta e a cerveja começa a fluir, o copo é mantido em um ângulo de 45 graus. O objetivo dessa primeira etapa é preencher até aproximadamente três quartos de sua capacidade, o que normalmente ocorre em 8 a 10 segundos. 

No entanto, ao observar os especialistas, nota-se que, ao atingir cerca de dois terços do volume, o copo já começa a ser inclinado gradualmente até alcançar a posição vertical.

Na simulação CFD, esse movimento precisa ser descrito e modelado como deslocamento do corpo rígido. À medida que o copo se move, sua malha computacional acompanha o movimento, enquanto a malha estática que contém a torneira e o ambiente ao redor permanece fixa.

A malha overset é utilizada como a solução ideal para impor esse movimento ao copo, reproduzindo o manuseio do barman com excelente qualidade de malha em todo o processo. 

Para garantir ainda mais fidelidade e estabilidade, são aplicados novamente os recursos de refinamento de malha adaptativo, desta vez na interface entre a malha móvel do copo e a malha estática de fundo.

4. A sedimentação

Chega a etapa mais desafiadora e também a mais fascinante: a espera.

Enquanto cresce a expectativa pelo primeiro gole, o processo de sedimentação pode ser observado. Milhões de bolhas percorrem caminhos incomuns dentro do copo, em um espetáculo visual que já foi tema de inúmeros estudos (semi)científicos. 

Um dos fenômenos mais conhecidos é o aparente movimento descendente das bolhas na espuma da Guinness, que, paradoxalmente, se acumulam no topo à medida que a cerveja se estabiliza, em um processo hipnotizante acompanhado por uma bela transformação de cor.

De fato, as bolhas se deslocam para baixo nas regiões externas do copo, revelando um fluxo descendente próximo às paredes. O que não é visível a olho nu é a presença de uma corrente ascendente no centro: formada pelas bolhas de nitrogênio que, por possuírem menor peso específico, sobem da base em direção ao topo. Esse fluxo ascendente acaba puxando as bolhas laterais para o centro, forçando-as a descer antes de retornarem à parte superior, onde formam a tradicional coroa branca. Em resumo, estabelece-se um fluxo em forma de rosca.

Esse padrão é mantido até que praticamente todas as bolhas atinjam a superfície, formando uma camada de espuma consistente sobre a cerveja escura. Na prática, todo o processo leva cerca de um minuto.

Na simulação CFD, entretanto, a abordagem multifásica utilizada tende a subestimar o tempo de separação. Assim, quando o enchimento é interrompido, grande parte da sedimentação já está concluída. 

Como consequência, o fluxo em forma de rosca não chega a se desenvolver plenamente, pois a maior parte do gás de propulsão dissolvido na cerveja já não está mais presente. Ainda assim, o resultado final apresenta a espuma devidamente formada sobre o líquido. Para maior fidelidade, ajustes na modelagem e práticas adicionais de simulação são necessários.

Felizmente, os recursos de passo de tempo adaptativo automático disponíveis em CFD permitem que até intervalos de dois minutos sejam simulados sem perda de estabilidade numérica.

5. A recarga

Quando a decantação chega ao fim, é a hora do barman fazer o segundo enchimento, conhecido como recarga. É nessa etapa final que surge a beleza única da stout: com o copo já na posição vertical, a vazão é controlada para provocar uma agitação suave no líquido, permitindo que a última camada de espuma se forme e ultrapasse levemente a borda do copo.

Essa sequência – abertura e fechamento do bico, ajuste das vazões, definição do tempo de cada subprocesso, movimentação do copo, entre outros – é reproduzida por meio de operações de simulação. O recurso, já incorporado ao software, permite executar processos complexos sem necessidade de scripts ou intervenções manuais. Além de configurar parâmetros e controlar o solver numérico, as operações incluem eventos lógicos, loops e outros elementos de programação que tornam possível dar vida a todo o processo.

6. A apresentação

Finalmente! Ela está aqui, em toda a perfeição e pronta para ser apreciada.

Para que essa perfeição seja honrada em um ambiente CFD, recursos de renderização de alta qualidade precisam ser utilizados. E, assim como na cerveja de verdade, o cuidado e a busca pela perfeição são exigidos. Nesse ponto, engenheiros e bartenders não são tão diferentes: o copo foi limpo, a fonte polida, e as cores da espuma e da cerveja, observadas com atenção.

Uma bebida artesanal e lendária precisava ser homenageada com o pós-processamento mais belo que já recebeu.

Chegou a hora da validação.
A primeira stout virtual do mundo, produzida por uma ferramenta de CFD, está pronta para ser validada.

Na JL Engenharia e Software, é assim que a tecnologia é tratada: com precisão, criatividade e paixão, do mesmo jeito que uma boa cerveja artesanal merece ser apreciada.

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